Bulgária: Entre impérios, montanhas e uma notável capacidade para resistir

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Há países que passaram pela História. A Bulgária parece ter passado por cima dela, por baixo dela e, em alguns momentos, provavelmente terá perguntado se não havia uma saída lateral. Situada no coração dos Balcãs, entre o Danúbio, o mar Negro e uma sucessão de montanhas que parecem ter sido colocadas ali precisamente para dificultar a vida aos invasores, a Bulgária ocupa um território relativamente pequeno, mas com uma concentração histórica impressionante. Trácios, romanos, bizantinos, búlgaros, otomanos, russos e várias potências europeias deixaram marcas por ali. E, apesar de tudo isso, a Bulgária continua no mapa. O que, considerando a vizinhança e os últimos quinze séculos, já é uma espécie de currículo.

As origens medievais e o nascimento do alfabeto cirílico

O Estado búlgaro surgiu oficialmente no século VII, quando o khan Asparuh estabeleceu um novo poder na região em 681. Pouco depois, a Bulgária tornou-se uma potência importante do sudeste europeu. A conversão ao cristianismo, em 864, durante o reinado de Boris I, foi decisiva para a cultura e para a consolidação do Estado.

Foi também nesse contexto que a Bulgária se tornou um dos grandes centros da cultura eslava medieval. No final do século IX, durante o Primeiro Império Búlgaro, desenvolveu-se em Preslav a escrita cirílica, a partir de elementos do alfabeto glagolítico e do grego. Dessa forma, enquanto boa parte da Europa ainda discutia fronteiras e sucessões dinásticas, os búlgaros estavam a ajudar a criar o alfabeto que milhões de pessoas utilizariam séculos depois.

O domínio otomano e a preservação da identidade cultural

O problema de ser uma potência balcânica é que os vizinhos também gostam de História — sobretudo daquela parte em que conquistam o vizinho. A Bulgária viveu períodos de grande poder, mas acabou dividida e enfraquecida diante da expansão do Império Bizantino e, posteriormente, dos otomanos. No final do século XIV, o Estado medieval búlgaro caiu perante o avanço otomano, iniciando um período que duraria quase cinco séculos.

Durante esse longo intervalo, desapareceram as instituições estatais búlgaras independentes, mas a identidade cultural não desapareceu com elas. Mosteiros, comunidades religiosas, literatura e tradições ajudaram a preservar uma continuidade que seria fundamental quando surgisse a oportunidade de reconstrução nacional. O Mosteiro de Rila, cuja história atravessa cerca de dez séculos, tornou-se um dos símbolos dessa resistência cultural e espiritual.

Do renascimento nacional à independência plena

A partir do século XVIII, o chamado Renascimento Nacional Búlgaro começou a transformar essa memória cultural em consciência nacional. Em 1762, Paisius de Hilendar escreveu a sua História dos Eslavo-Búlgaros, obra que desempenhou um papel importante nesse despertar. Depois vieram escolas, movimentos culturais e organizações revolucionárias. Em 1876, a Revolta de Abril foi brutalmente reprimida pelas autoridades otomanas, provocando forte repercussão internacional.

O episódio contribuiu para aumentar a pressão europeia e para o desencadeamento da Guerra Russo-Turca de 1877–1878. O Tratado de San Stefano, assinado em 3 de março de 1878, reconheceu uma Bulgária autónoma de dimensões muito superiores às que acabariam por prevalecer. Três meses depois, o Congresso de Berlim redesenhou o mapa. A História búlgara descobriu então uma velha regra dos Balcãs: ganhar uma guerra não significa necessariamente ficar com o mapa que se esperava.

Ainda assim, a reconstrução avançou. Em 1885, a Bulgária conseguiu a unificação com a Rumélia Oriental, e em 22 de setembro de 1908 o príncipe Fernando proclamou a independência plena do país, assumindo o título de czar. Contudo, o século XX brought outra sequência de conflitos. A Bulgária participou nas Guerras Balcânicas, entrou na Primeira Guerra Mundial ao lado das Potências Centrais e terminou novamente derrotada. Depois vieram a Segunda Guerra Mundial, o período comunista e, a partir de 1989, a transição para um sistema democrático e uma economia de mercado. Em 1990 realizaram-se as primeiras eleições democráticas depois do colapso do Estado comunista.

A integração europeia e o legado histórico

Desde então, a Bulgária foi a sua posição europeia. Entrou na NATO em 29 de março de 2004 e na União Europeia em 1 de janeiro de 2007. Em 31 de março de 2024 passou a integrar plenamente o espaço Schengen e, finalmente, em 1 de janeiro de 2026, adotou o euro, tornando-se o 21.º membro da área da moeda única. É uma transformação considerável para um país que, menos de um século antes, tinha atravessado duas guerras mundiais, mudanças territoriais profundas e décadas sob um regime comunista.

Mas talvez a melhor maneira de compreender a Bulgária seja olhar para as suas montanhas, cidades e mosteiros. A paisagem guarda vestígios trácios, romanos, medievais e otomanos; Plovdiv acumula camadas arqueológicas de diferentes civilizações, enquanto a UNESCO reconhece dez sítios búlgaros como Património Mundial. É como se o país tivesse decidido transformar cada invasão, cada império e cada mudança de regime numa camada adicional de memória.

No fundo, a Bulgária passou por impérios, guerras, fronteiras redesenhadas, cinco séculos de domínio otomano, comunismo e uma longa reintegração europeia. Mudaram os governantes, mudaram os mapas, mudaram as moedas e até mudou o alfabeto que hoje atravessa boa parte do mundo eslavo. As montanhas, entretanto, continuam no mesmo lugar. E talvez tenham aprendido a não se meter em política. Já viram demasiadas coisas para cometer esse erro.

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